30.9.10

Destroços


A vida anda complicada na pequena pacata cidadezinha de Guararapes. Os moradores estão se engalfinhando, as ruas estão sujas, as lojas sem estoques, as crianças na rua, os velhos mortos, os adultos trepando e bebendo e comendo e vestindo e comprando e sonhando e sendo.
As escolas estão vendando estereótipos e sonhos perdidos, estão vendendo jovens de cabeça baixa para a vida que é tão monstruosa.
Deus está deixando de lado, por falta de tempo, os que pedem demais. A gente enxe o saco de Deus... Sim companheiro, até ele tem um saco que pode encher e explodir.
As autoridades estão depravadas, os amigos estão longe morando na esquina da frente. As mães estão desiludidas com o casamento filha da puta em que se meteu, e o pai preocupado para que ninguém descubra aonde ele meteu.
A vida em Guararapes anda meio complicada: as pessoas não querem mais viver em seus corpos, as molduras estão escondendo os quadros por vergonha de abrigarem alguma coisa tão caótica e sem nexo que são esses malditos quadros.
Os remédios para a depressão acabaram não há ópio não há álcool, não há tarja preta, tem sangue e Legião para chorar. Tem biografias do tipo Kurt em que você lê o que te convém: conforta-se em saber que todo mundo sofre, alguns são mais covardes, ou corajosos?
Esgoto no esgoto toda essa sujeira que a gente chora nas pias de banheiros sujos por essa cidade porca. Acabou o sonho, John.Afinal de contas, daqui ninguém sai vivo.
Caralho, será que ele não entende que era para ser um poço de felicidade ambulante? Ele sai daqui e me deixa com o coração isolado no fundinho do peito, me deixa chorando e escrevendo prum blog onde meia dúzia de gente lê e não se sabe por que eu sou tão infeliz.
To triste porque eu quero, aham, senta lá. Hoje eu to triste porque eu vejo que meu amor, essa porra de coisa que ta aqui dentro, está indo pelo mesmo bueiro sujo que a vergonha das pessoas dessa cidade.
As coisas acabam, menos a minha dor e minha infelicidade. Quem me dera ser Clarisse e sentir a dor física e acabar com essa dor mental, moral, “coracional”. A dor de verdade.

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