8.3.12

A Insuficiência Crônica

A insatisfação presente no cotidiano tem sido o fato que permitiu a vida das mulheres serem mais massacrantes. A tolerância que se usa para administrar as sensações e os problemas está sendo praticamente mínima: hoje não se aceita gordurinhas extras, não se aceita cabelo crespo, não se aceita usar manequim 46, não se aceita calçar 41 e muito menos, nunca aceitarão o fato de ter alguém mais bonita do lado.
A falta de autoestima, a insegurança e o amor próprio ferido são casos comuns entre as pessoas que sofrem essa coerção social do perfeito imposto constantemente na nossa realidade. Ninguém chega e diz: você precisa ser assim, ou daquele jeito. Dizem mudamente, que se você for do jeito que eles querem você será mais amada, você será feliz, participará de um comercial de margarina, poderá ser modelo, viajar à Paris e Milão, encontrará um homem perfeito: rico, loiro, olhos claros, dono de uma emissora de TV, e que faça o jantar, traga vinho tinto- tal qual duvido que você possa tomar, pois estará de dieta constantemente.
O problema é que não se precisa de ninguém firmemente te falando como deve agir, nem as propagandas contínuas, nem os parentes chatos, nem as revistas de moda, muito menos os endocrinologistas e nutricionistas; parece que hoje a gente já nasce imperfeita, já nasce com a idéia implantada de que você precisa atingir um patamar- que você nem sabe que nunca poderá alcançá-lo. Tenho a impressão, de que ninguém nunca te disse nada sobre padrões, sobre beleza ou sobre comportamento adequado. Hoje, a situação está tão caótica e sem nexo que, não sei por que cargas d’água, nós, independentemente do que fazemos, e como fazemos, achamos que está errado, que alguém por ai faz melhor. É como se nascêssemos com o sentimento de insuficiência. Nunca seremos bons o bastante.
A antropologia e a sociologia devem explicar isso, eu espero.
O problema maior, entretanto, é o efeito que esse suposto sentimento embutido de insuficiência provoca nas pessoas, especialmente nas mulheres, que a meu ver, são as mais vulneráveis, e as que mais escutam esse sentimento enraizado.
A depressão. Se ela realmente existir, acredito que seja proveniente do sentimento de incompletude. O clichê explica bem melhor que qualquer psiquiatra: a grama do vizinho, sempre, absolutamente sempre, será mais verde que a nossa. Por quê? Acho que ela só é mais verde porque não é nossa. Se mudássemos pra casa do vizinho, se aquela grama fosse nossa, com certeza agora a grama do vizinho da frente é a que seria mais verde. Será que desejamos tudo o que não é nosso? Será essa a origem do sentimento de insuficiência? O outro é sempre mais capaz que nós e isso faz com que nos sentíssemos piores, sentíssemos menos, insuficientes no quesito?
Assim fica bem difícil ser feliz.
A outra face da moeda é justamente essa: a felicidade. Nunca vou me considerar feliz se eu não tenho a grama mais verde. Mas afinal, que diabos tem de tão importante nessa grama? Não, a felicidade não é algo que se encontra em nós, como a maioria dos meros mortais dizem para poder dormir melhor à noite. A felicidade depende sim de um terceiro elemento. Quem você acha que trabalhou pra essa grama ficar verde, hein? Não basta olhá-la. Tem que regar tem que acabar com as ervas daninhas com algum tipo de inseticida. Viu só, a grama mais verde de todas, ou seja, a minha felicidade, não depende só de mim, depende do fabricante do regador e depende do fabricante do inseticida!
Eu sei, a metáfora é uma bosta, mas compreendem que a felicidade não depende só de nós, então, por favor, parem com esse discurso calvinista de que a felicidade depende só do nosso suor, da nossa lágrima, do nosso sangue. Parem, por favor. Vocês estão criando uma sociedade individualista, competitiva e depressiva!
A felicidade pode estar mais perto de nós quando conciliarmos o amor que doamos ao próximo com as nossas tentativas de fazermos as nossas sensações de insuficiência serem apenas sensações sem sentido, ou seja, a felicidade vem de graça quando se consegue um amor que amenize as nossas imperfeições, que deixe em segundo plano essa idéia fixa de superação do insuperável.
Agora, como conseguir esse amor eu já não sei. Só sei que sendo protagonista do comercial de margarina, a qual eu nunca poderia comer, é que não é!

Um comentário:

Marcos Alexandre Silveira disse...

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