21.7.12

O Sol de Julinha



Era noite, em um quarto onde as paredes nunca me pareceram tão finas. Cuidava dos meus dois pequenos, Julinha e Victor, que estavam assustados com a briga horrenda envolvendo nossos pais.
Liguei o rádio, uma música alta, mas nada distraia a atenção de Julinha na briga lá fora.
Sabe, eu já tinha desistido, desistido de acreditar no amor, no casamento e na bondade de Deus. Como esse Deus tão bondoso poderia fazer sofrer uma criancinha de 6 anos? Que Deus é esse?
O bom é que nesses momentos em que se dói e não se pode demonstrar, acontece algo. A gente nunca sabe o que pode despertar-nos a alegria de viver...
- Dê, eu queria que esse dia acabasse – disse-me Julinha aos prantos.
-Calma Julinha, olha lá fora – eu abro a janela – está noite e daqui a pouco o Sol nasce e acaba com os problemas.
Julinha parou, coçou a cabeça e me olhou:
-Já sei por que o Sol leva os problemas embora...
-Por que, meu amor?
-Quando o Sol nasce a gente olha para ele, ele deixa nossos olhos pequenininhos e meio confusos, depois, quando os olhos se abrem de novo, o problema some, desaparece.
Julinha reagiu como se tivesse descoberto o mundo, e depois disso ela simplesmente sentou e esperou o Sol nascer.
Agora, eu, coitada de mim, nunca mais enxerguei o Sol como uma estrela qualquer. Sempre, todos os dias, eu faço questão de olhar o Sol quente, olhar até os meus “olhos ficarem meio confusos”, só para depois abri-los e ter a esperança de que meus problemas foram embora, desapareceram.

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